Um plano de nação à esquerda

Reorganizar um plano de nação – não com vistas às eleições, mas mirando décadas à frente como a China tem feito –  é única forma de resistência possível ao avanço neoliberal.

In Coluna by Rosana Pinheiro-MachadoLeave a Comment

É sempre inspirador ir a China e perceber o quanto é possível construir quando se tem um plano de nação. Cerca de 15 anos atrás, quando eu interpelava autoridades chinesas sobre a produção de pirataria em regime de trabalho intensivo, eu sempre achava que a resposta homogênea que eu recebia era nacionalismo barato e discurso ideológico alinhado entre agentes do Estado e o Partido Comunista. Todos diziam que essa fase do desenvolvimento iria se tornar obsoleta em poucos anos – o que parecia impossível.

É surpreendente que, em tão pouco tempo, a profecia tenha sido realizada. Hoje, é difícil achar mercados de falsificações nas grandes cidades chinesas. Já faz anos que a China se tornou o país com maior número de registro de patentes do mundo e volta a sua atenção para os projetos Made in China 2025 e Inteligência Artificial 2030, ao mesmo tempo em que retira 20 milhões de pessoas da pobreza por ano.

As críticas ao modelo de desenvolvimento chinês são inesgotáveis, mas a maior lição que a China pode dar ao Brasil é a sua capacidade de ter um plano de nação abrangente que pense décadas à frente e coloque as elites a serviço do todo. No caso brasileiro, de maneira oposta, os políticos pensam nas eleições e as elites trabalham para para se perpetuar.

As elites brasileiras têm um modelo estrutural de ação que não inova muito além do que Peter Evans, teórico da dependência, já identificava nos anos 1970: elas preferem ceder para o mercado internacional no intuito de se manter elite em relação aos de baixo – que devem sempre se manter abaixo. Ser pequeno ante os grandes do mundo, mantendo-se grande entre os pequenos, é uma postura histórica medíocre que perpassa décadas e informa diversas posições nacionais do Brasil em relação a áreas estratégicas.

Com o modelo neoliberal que vem se aprofundando desde os anos 1990, a direita brasileira procura manter o poder das elites políticas e econômicas, surfando na retração dos direitos e nas ondas de privatizações, aumentando fortunas, linhagens e mantendo o país em posições subalternas no sistema internacional.

Sendo este o modus operandi da direita, cabe à esquerda elaborar um plano de nação radicalmente ambicioso, cosmopolita – no sentido de buscar soluções com o melhor que a casa e o mundo oferecem – e que coloque o Brasil nem abaixo dos países ricos, nem acima dos países pobres, mas no seu próprio lugar de soberania.

É possível argumentar que a esquerda, nos governos do Partidos dos Trabalhadores (PT), tinha um projeto que levou o Brasil à posição de sétima economia do mundo e cuja emergência no sistema internacional foi tida como modelo global. É fato que esse projeto foi interrompido por forças antidemocráticas e que o que está hoje no poder é mais daquelas velhas elites medíocres.  

Desde o impeachment, no entanto, a esquerda atua de forma reativa e carece de uma direção. Isso forma um ciclo vicioso retroalimentador: ao ter que se defender de cada paulada que recebe, a esquerda não conseguem olhar para o futuro. Ao não olhar para o futuro, a esquerda só sabem agir de forma reativa.

Reorganizar um plano de nação – não com vistas às eleições, mas mirando décadas à frente como a China tem feito –  é única forma de resistência possível ao avanço neoliberal.

Tenho preferido falar em plano de nação a projeto. Projetos podem ter alcances e delineamentos diversos. Projetos podem se confundir com planos de governo. Plano de nação é mais abrangente tem significados mais delineados: uma direção aonde se quer chegar com metas definidas para os próximos dez, vinte e trinta anos.

Quando falamos em plano de nação, temos a clareza da pobreza política em que nos encontramos, à espera de definições de candidaturas à presidência. Uma vez estabelecidos os nomes, começa uma verdadeira gincana de poucos meses para elaborar um plano de governo, com equipes muitas vezes compostas mais por quadros políticos desatualizados do que por especialistas independentes.

O que dispomos de informações dos projetos dos partidos que se anunciam hoje à disputa presidencial? Quase nada. Com a indefinição dos pré-candidatos, sabemos muito pouco a linha que o PT seguirá: se pela via da conciliação, da radicalização do discurso à esquerda, do desenvolvimentismo, etc. Como a indefinição do maior partido de esquerda, todo o restante é sequestrado pelo momento. Sabemos questões pontuais do Plano Vamos, que vem sendo elaborado no último ano. Mesmo com uma elaboração mais popular e democrática do que o convencional, a fusão Guilherme Boulos, Vamos e PSOL ainda deixa muitas dúvidas para o eleitor comum sobre o caminho da candidatura em relação ao lulismo, por exemplo.

Com a avalanche des-democratizante que esmaga o Brasil atualmente, é impossível esperar que algum partido de esquerda apresente um plano de nação sólido neste momento. Todavia, a esperança é que as eleições de 2018 se constituam um marco da reorganização democrática das esquerdas, do surgimento de novos movimentos mais transversais e da consolidação de projetos e planos de governo partidários que possam amadurecer no debate público suas visões de Brasil para as próximas décadas.

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