Falta Indignação

O que Bolsonaro tem? Indignação. A extrema direita fascista é quem tem conseguido surfar na onda da revolta popular. Nenhum candidato do campo progressista tem conseguido comover minha raiva.

In Coluna by Rosana Pinheiro-MachadoLeave a Comment

Bolsonaro demonstra indignação – e é esse o seu principal trunfo eleitoral. Justamente o sentimento que tomou conta do mundo após 2011 e que tem sido a extrema direita que tem conseguido surfar nessa onda, inclusive porque – sejamos honestos, no cenário político atual do Brasil – carecemos de uma extrema esquerda.

Ontem assisti um vídeo viral no qual ele defendia o uso de armas para crianças. Com os métodos mais violentos e  errados, ele demostrava “genuina” (mesmo que fosse performance) preocupação com a segurança pública. Vermelho de raiva, ele seguidamente repete “isso é um absurdo”, “isso é uma pouca vergonha”, “não é possível mais”. E assim ele fala não apenas da segurança pública, mas do abandono das escolas públicas, novamente, prometendo métodos simplistas para problemas complexos. (Eu estudei minha vida toda em escola pública precária e sei o que significa não ter professor. Também acompanho hoje a preocupação vital de nossos interlocutores de pesquisa que estão pensando em votar nele. Pessoas que entregam seus filhos na escola, sabem que as crianças irão ficar à toa e sequem possuem garantias de que voltarão vivas para a casa).

O que nós temos visto é que existem basicamente dois tipos de eleitores de Bolsonaro: aqueles fanáticos que preenchem o checklist do racista, fascista, maschista e homofóbico; e todos aqueles que – talvez maioria – acham ele extremista, desconfiam dos métodos, mas alegam que “e tem alguém mais prometendo resolver?”

Dentre esses eleitores “não convictos”, também percebemos que uma grande parcela manifesta voto a Lula “se o homem concorrer, votamos nele porque ao menos nossa vida era melhor”. Esse aumento da intenção de voto a Lula é parte desse desejo indignado por melhora.

O discurso da indiganção contra o sistema político permeia quase todas as candidaturas. A diferença de Bolsonaro é que ele “se indigna” com questões concretas que são vitais na vida do povo. Os candidatos do campo progressista de outro modo, constroem uma  narrativa de indignação contra “desigualdade” – termo muito pouco tangível para grande parte da população paupérrima.

O PT, em seus próprios termos, vai muito bem e obrigada nesse quadro: foca sua indignação para dentro em uma pauta concreta, mobilizando a militância com os temas da injustiça do golpe e da prisão de Lula e apostando na imagem grandiosa do ex-presidente.

Aí resta toda uma esquerda perdida entre orbitar na volta do PT e construir um programa de esquerda independente, além de um centro pouco entusiasmante. Olhando programa a programa, temos propostas mais progressistas ou menos progressistas, mas poucos dando a cara a tapa, encarnando e reorganizando a indignação com um bom e velho radicalismo. É sempre um radicalismo com medo, até ali, “paz e amor”, pisando em ovos. Infelizmente essa tem sido uma aposta errada.

PS. E é exatamente por isso que eu, e provavelmente muitas outras indecisas, não consigo decidir meu voto a presidente. Nenhuma candidatura consegue comever a minha raiva.
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