“É uma descrença total na democracia representativa”

Entrevevista concedida à Fernanda Canofre do Sul21. Em profundidade, pude desenvolver diversos assuntos que venho trabalhando desde 2013: Jornadas de Junho, precariado, Bolsonaro e a greve dos caminhoneiros.

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Entrevevista concedida à Fernanda Canofre do Sul21. Em profundidade, pude desenvolver diversos assuntos que venho trabalhando desde 2013: Jornadas de Junho, Bolsonaro, politização, precariado e a greve dos caminhoneiros. A foto é de Joana Berwanger (Sul21)

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Alguns dias após o início da greve dos caminhoneiros que parou o Brasil neste maio de 2018, a cientista social e antropóloga Rosana Pinheiro-Machado e sua colega Lúcia Scalco, também da Antropologia, chegaram a um ponto de paralisação na BR-290, próximo a de Porto Alegre, para ouvir um grupo de manifestantes. Entre os 30 caminhoneiros concentrados no local, “metade autônomo, metade empregado”, de várias regiões do país, elas vislumbraram um pouco melhor o que foi o episódio e algumas das reivindicações contidas nele.

Encontraram quem discutia se foi golpe ou não foi golpe, quem odiava Jair Bolsonaro (PSL), um dos candidatos que mais tem pontuado em pesquisas de intenção de voto, quem admirava Ciro Gomes (PDT), apoiadores da intervenção militar e quem começou a discutir política somente quando parou na estrada.

Há pouco mais de um ano, a dupla de antropólogas se dedica a entender o que faz com que um candidato como Bolsonaro ganhe eleitorado no Brasil. Foi o boato nos grupos de WhatsApp, de que a greve dos caminhoneiros tinha uma forte mobilização de apoiadores dele, que as levou a ouvir o movimento. No local, porém, viram que não era bem isso. Os caminhoneiros mostraram um lado da população descrente na política institucional como um todo, uma nova faceta de quem cansou do sistema como ele é. Um deputado com mais de 20 anos de mandato na Câmara não traduziria o que eles esperam para o país.

Em um texto publicado no site de Rosana, no dia 28 de maio, onde relatam suas observações, as autoras contam: “Disseram que entenderam que eles são o motor do país e que nunca mais se esquecerão desses dias intensos: ‘Agora nós queremos virar heróis por tirar o presidente’.”

Mas, a greve acabou antes disso. Enquanto o governo de Michel Temer (MDB) se apressou em anunciar o fim dela, na sexta-feira 25 de maio, depois de reunião com representantes dos caminhoneiros, ligados a sindicatos e uniões, nas estradas, milhares deles seguiram por mais cinco dias para dizer que não estavam ali apenas pela redução do preço do combustível.

Rosana é professora na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), passou pela Universidade de Oxford e de São Paulo (USP), e pesquisa economia informal e ilegal, pobreza e modernidade, no Brasil e na China. Uma nova classe que ela chama de “precariado”. Ela conversou com o Sul21 sobre que lições ficam das quase duas semanas de queda-de-braço entre um enfraquecido governo e um grupo de trabalhadores sem liderança e com pautas fragmentadas.

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