Do lulismo ao bolsonarismo. Entrevista especial com Rosana Pinheiro-Machado

O que fez com que “uma grande parcela” da população brasileira e, mais especificamente, de Porto Alegre, passasse de uma adesão ao lulismo para uma identificação com o bolsonarismo?

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O que fez com que “uma grande parcela” da população brasileira e, mais especificamente, de Porto Alegre, passasse de uma adesão ao lulismo para uma identificação com o bolsonarismo? Compreender esse fenômeno tem sido o tema de estudo das pesquisadoras Rosana Pinheiro-Machado e Lúcia Scalco. Essa motivação, explica Rosana, surgiu em “uma roda de conversa” realizada com os estudantes no final de 2016, a qual “demonstrou que muitos jovens achavam as ocupações coisa de vagabundo. A partir destas pistas nas narrativas, não foi difícil encontrar uma rede ampla de pessoas que desde 2016 passaram a se identificar com o bolsonarismo — conceito que, para nós, está muito além da figura do candidato, mas corresponde a uma nova roupagem do discurso conservador (que não é novo, evidentemente, nas classes populares)”.

Na entrevista a seguir, concedida por e-mail à IHU On-Line, Rosana Pinheiro-Machado explica que a pesquisa não identificou um “padrão” do eleitor de Bolsonaro, porque “há eleitores mais abastados, menos abastados, jovens e velhos, e com diferentes trajetórias de vida”, mas isso, explica, “já é um dado importante”, porque o “discurso ‘populista’ de ‘falar o que todo mundo quer ouvir’ é capaz de atingir pessoas de diferentes pertencimentos: da igreja, o ‘jovem trabalhador motorista de Uber’, o adolescente, o funkeiro”. Em “comum”, diz, todos os possíveis eleitores do candidato à presidência Jair Bolsonaro têm “o desejo pelo porte de armas, como uma expressão de um apelo por segurança pública”.

Segundo ela, outros fatores explicam a adesão de uma parte da população ao candidato, como “o medo dos assaltos, a forma como os meninos sentem medo diante da violência urbana escancarada e brutal de Porto Alegre, que deixa todos os seus moradores com a sensação de ser terra de ninguém”. Além disso, pontua, do mesmo modo que o voto em Trump, “o voto em Bolsonaro é uma reação à emergência das pautas ‘identitárias’”.

Em resumo, adverte, “a grande maioria de nossos interlocutores não corresponde a qualquer estereótipo da polarização como sujeitos fascistas, violentos e intransigentes. São pessoas que estão procurando alternativas para as suas duras vidas e lidando com as informações de um candidato que atualmente reina sozinho nas redes sociais. Estão procurando soluções de cima para baixo — e isso sequer se difere de uma parte do eleitor de esquerda que também se identifica com figuras paternalistas e salvadoras”.

Rosana Pinheiro-Machado também comenta a necessidade de um projeto nacional para o país que ultrapasse os projetos de governo que são disputados de quatro em quatro anos. “Esse é um projeto que precisa ser encabeçado pela esquerda, afinal, a direita vive seu próprio projeto: enxugar o Estado, tornando-o um braço gestor do mercado. O projeto neoliberal está de vento em popa e é a esquerda que precisa propor um projeto alternativo e, em minha visão, precisa contemplar aspectos que têm sido sumariamente ignorados: o que é de fato uma modernidade brasileira? Como democratizar a política a partir da inserção de negras, negros, mulheres e LGBTs, não de fachada, não de vice, mas na vanguarda de nossas trincheiras? Como reverter o genocídio negro deste país junto com uma nova segurança pública? Como ter um desenvolvimento sustentável humano e ecologicamente? E como transformar o popular, o saber tradicional e local em energia de desenvolvimento e inovação? Qual o papel das ciências e da tecnologia em nosso país e para quem elas servem? Qual o tipo de globalização e ordem mundial queremos participar e como posicionamos o Brasil em relação a seus parceiros?”, questiona.

Entrevista completa aqui

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