Depressão e sofrimento na pós-graduação: frescura catártica ou saúde pública?

Outrora tabu, o tema da depressão e do sofrimento – e da linha fina que os separa – tem vindo à tona na vida acadêmica.

In Coluna by Rosana Pinheiro-MachadoLeave a Comment

Todavia, ainda há uma carência do tema no debate público – tema este sempre abordado em conversas privadas, como se as pessoas tivessem vergonha de admitir uma “falha individual”.

Não é raro que orientadores e estudantes abordem o assunto de forma leviana, por meio de brincadeiras sutis que dão a entender que depressão é “frescura” ou “fraqueza”, já que os “bons” teriam que “segurar o tranco”.  Estar na pós-graduação seria um privilégio e, por isso, todos deveriam estar contentes. Há também aqueles que romantizam o sofrimento mental como uma espécie de um ethos intrínseco às trajetórias dos gênios confusos, dos intelectuais desajustados ou do alto esforço do mérito.

Esse tipo de visão sobre a dor e a ansiedade é perversa, irresponsável e ignorante de um quadro de alerta global cujo desenrolar mais drástico e irremediável é o suicídio.

Mas antes de prosseguir é preciso fazer algumas ressalvas. A primeira é que há muito desconhecimento das causas do adoecimento, do que é novo no século XXI (ou se simplesmente temos mais abertura para falar hoje), do que é realmente singular ao campo acadêmico e do que exatamente está sendo chamado de depressão. A segunda ressalva é que, em meio a tanta dificuldade de se diagnosticar o problema, há também o oportunismo midiático, pautado por agendas editoriais obscuras em relação à privatização das Universidades, bem como o interesse mercadológico em medicalizar o problema.

Consciente destas limitações, não restam dúvidas de que esse debate é urgente. Os números não deixam dúvidas que existe uma crise no sistema global: cerca da metade dos pós-graduandos em diversos programas no Brasil e do mundo estão em sofrimento e/ou em condição mental precária: ansiedade, stress, crise de pânico e depressão. A taxa de suicídio também têm aumentado. E, ao que tudo indica,  isso é um problema que piora no século XXI. Compilei alguns dados na imagem abaixo:

Sem conhecer todas as metodologias, o que podemos afirmar por triangulação é que uma a cada duas pessoas não está bem. E a chance de essa pessoa ser mulher, pobre, negra, estrangeira ou trans é muito maior. Mas carecemos de mais dados com nuanças que analisem recortes de classe, raça, gênero, idade, trajetória familiar e nacionalidade.

A condição objetiva do ensino superior nacional não é exatamente um fator decisivo. Países desenvolvidos, como a Bélgica, apresentam números alarmantes de depressão.  Assim, é inegável que a crise brasileira agrava o sofrimento, mas o ponto a que quero chegar é que, globalmente, há uma percepção de que o sistema piorou no século XXI: mais pressão por resultados e menos oportunidades. Ou seja, trabalha-se o mais por menos: menos esperança e menos oportunidades. As pessoas ainda ingressam na carreira acadêmica com o imaginário da vida intelectual rica – glamourosa, cosmopolita, estimulante e flexível – mas  encontram uma realidade em plena precarização. O sistema ruiu bem na minha vez, não é mesmo?

Sobre as causas dessa crise, há a necessidade de se tratar um tema complexo com respostas complexas. Isso significa que somente uma análise histórica do campo e do ethos acadêmico não dá conta do problema. Na mesma medida, explicações como “não existe crise e/ou opressão acadêmica: existe crise e opressão capitalista” são extremamente simplistas. O neoliberalismo e sua gana por produtividade e individualização não é responsável pelas dores que são próprias da relação de poder, das expectativas e das transferências múltiplas presentes na relação de orientador-orientando, por exemplo.

Com isso, insisto na necessidade de se cruzar elementos da dinâmica do campo acadêmico com a questão estrutural – e que ambas dimensões são indissociáveis. Eu resumiria que o neoliberalismo e suas crises exacerbam os problemas de um campo historicamente peculiar.

A própria natureza da produção de dados é angustiante e mentalmente exaustiva. Muitos pós-graduandos ficam isolados justamente durante uma fase na qual, já com idade avançada, se sabe pouco sobre o futuro. Antropologicamente, o doutorado pode ser entendimento como um limbo: um momento de transição marcado por ruptura, insegurança e confusão. Soma-se a isso, a falta de preparo pedagógico de muitos orientadores, que são o ponto de apoio dos estudantes, bem como a falta de apoio nas próprias redes pessoais, já que muitas famílias não entendem a natureza da pesquisa, associando-oa ora como a algo pouco útil sem retorno financeiro. Por fim, a escrita é o momento de colocar à prova todo o processo e, consequentemente, a chance de desenvolver a síndrome do impostor e bloqueio é enorme.

A escrita sempre foi um momento de ansiedade e agitação mental. Todavia, do ópio que sustentava a produção atormentada de Max Weber no início do século XX à massificação da ritalina de nossos dias, temos aí um fenômeno de proporções talvez inéditas. Afinal, ultrapassar por uma longa jornada de transição e isolamento sem perspectivas é um processo dramático, o qual piora com a crescente demanda por prazos mais curtos e artigos publicados durante a pós-graduação.

Se o modelo da vida acadêmica sempre foi construído sobre o mito do conhecimento e da genialidade personificada – são indivíduos que encarnam teorias -, isso vai ao encontro com o imaginário da realização individual e da meritocracia, bem com a esvaziamento do coletivo que marcam a racionalidade neoliberal. Parece-me que o cerne da crise encontra-se em uma disjunção temporal entre um ethos antigo que permanece e um modelo novo de pesquisa baseado na produtividade em massa.

O que fazer? As diversas pesquisas que existem em andamento sobre o quadro de adoecimento mental são fundamentais para alertarmos que se trata de uma problema de saúde coletiva e que precisa ser encarado por uma rede ampla de profissionais que atuam no ensino superior. Se estudantes estão sofrendo de forma epidêmica, nós precisamos agir.

Precisamos atuar na redução de danos, já que a solução das causas do problema só pode ocorrer por meio de uma transformação anti-sistêmica. Estamos diante de um sistema universitário que passa por cortes e transformações profundas. Lutar por melhores condições de pesquisa e contra o modelo vigente é uma tarefa de todos, mas também é crucial atuar em níveis intermediários institucionais.

Pleitear espaços institucionais de amparo e escuta é talvez a medida mais urgente. Muitos setores de apoio psicológico são inoperantes para dar conta da amplitude que o problema tomou. Minha experiência no ensino superior no Reino Unido apontou que os grupos institucionalizados de apoio entre os próprios estudantes (especialmente com a presença daqueles que já passaram por problemas) ajudam significativamente a aliviar o desamparo e a dor, já que esses grupos desempenham uma dupla função: ao mesmo tempo em que promovem o espaço da conversa, também mostram ao estudante que ele não está sozinho e que isso é um problema mais comum do que ele imagina durante sua noite de insônia.

No intuito de des-individualizar o sofrimento, a institucionalização dos grupos de apoio são apenas um pontapé inicial neste debate tão profundo. Melhor infraestrutura para a pesquisa, recursos, suporte pedagógico dos e para os orientadores, entre outros tantos fatores, são igualmente cruciais para a saúde mental dos estudantes.

Por fim, os estudantes precisam conhecer o cenário de crise para evitar a decepção no meio do processo. Isso é importante, não para que o estudante viva em estado de desânimo, mas para que tenha expectativas realistas. Quem escreve este texto é uma acadêmica que, apesar de também passar por todas essas angústias e manter muitas dúvidas sobre o futuro, continua sendo uma entusiasta dos prazeres e das recompensas intelectuais proporcionadas pela pesquisa e ensino. Este debate é fundamental não para destruir o sistema universitário, mas para melhorá-lo.

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