Afinal, caminhoneiro apoia Bolsonaro ou Fora Temer?

Estamos perdidos. É preciso entrar de carona nas brechas das contradições e fazer desse momento um aprendizado, uma escuta generosa e crescimento político em uma nova época marcada por ambiguidade e potência política.

In Coluna by Rosana Pinheiro-MachadoLeave a Comment

 

Está todo mundo perdido, sim. E está todo mundo perdido pela milésima vez no Brasil no século XXI. E quem não se acostumar e não souber lidar com movimentos ambíguos e difusos continuará perdido. Não é possível mais pensar o hoje com a mentalidade dualista e polarizada que acompanhou a geopolítica do século XX.

Vejo muita similaridade com o que ocorreu com os rolezinhos em 2014. Imprensa, população e partidos: todo mundo perdido, buscando enquadramento, ora dizendo que era só diversão e sede capitalista, ora dizendo que era a luta de classes. À época, nós estudávamos o tema e pudemos pautar o debate dizendo que se tratava de diversão e política. Hoje, não sendo especialista no tema, apenas observo a mesma loucura se repetindo. ‘Ah mas não tem liderança’, ‘ah mas tem Fora Temer’, ‘ah mas descobri na Revista da Piauí que votam no Bolsonaro’, ‘ah mas tem faixa de Intervenção Militar’. Essa necessidade de encaixar num pólo cega absurdamente a compreensão de processos que são ambíguos objetiva e subjetivamente e que que estão – como venho repetindo (sorry!) – em disputa.

Sob o ponto de vista objetivo (1), fato é que o neoliberalismo transformou o capitalismo no século XXI e acirrou uma crise democrática – a crença popular numa possibilidade de democracia – ao mesmo tempo em que vivemos um novo ciclo de crise. Isso leva a muitos lados. Sob o ponto de vista subjetivo (2), essa “multidão”, esses trabalhadores precarizados, sentem na pela a desigualdade, são sujeitos políticos contestadores. Muitos apoiam Bolsonaro não porque são monstros dos mal, mas porque veem ali algo fora do sistema.

O que eu quero dizer é que, de um lado, a crise econômica e democrática que o neoliberalismo atual passa ainda resultará em infindáveis movimentos que a esquerda vai ficar desnorteada tentando colocar em caixinhas. A ambiguidade é da própria natureza desses movimentos de multidões precarizadas e uma vasta literatura já discutiu o potencial de insurgência à esquerda e à direita dessas pulsões rebeldes.

Mas meu ponto aqui é mais o subjetivo. Como alguém que estudou os rolezeiros e via ali a mesma contradição – de um lado reivindicando o direito à cidade e pautas anti racistas e, de outro, reproduzindo comportamentos misóginos e sedentos por inclusão capitalista – muito já escrevi que havia ali um duplo potencial nos mesmos sujeitos. Acertamos na análise. Não é à toa que uma grande parte ingressou no rap contestatório e outra parte dos jovens aderiram ao bolsominion. E ainda diria mais: ainda que nós tenhamos um lado, olhando os grupos de perto, eles não são tão diferentes o quanto se imagina e, de alguma forma, ambos estão tentando encontrar formas de canalizar a indignação e a descrença com a democracia

E o recado é: não é porque apoia o Bolsonaro que esse sujeito não traga em si a contradição e a revolta de viver numa sociedade desigual. Nós vivemos numa cultura violenta e autoritária e produziremos sujeitos violentos e autoritários, mas que também lutam por justiça à sua maneira. Entre a classe trabalhadora brasileira, não existe o sujeito político puro de esquerda que se encaixe no check list para a esquerda apoiar. É mais trabalhoso e nos exige mais imaginação navegar por esses mares menos óbvios.

Não acredito nem tenho ilusões românticas com uma “revolução caminhoneira” – isso não acontecerá para nenhum dos lados. O que nos cabe é entrar de carona nas brechas dessas contradições e fazer desse momento, não uma histeria nacional, mas um aprendizado, uma escuta generosa e crescimento político de como atuar em uma nova época marcada por tanta ambiguidade, mas ao mesmo tempo, potência política.

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